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14/11/2008

OPINIÃO - Planeta, pessoas e economia, o que vem primeiro?

A discussão sobre sustentabilidade está a todo vapor, em função das
descobertas das ciências da Terra sobre o funcionamento dos ecossistemas e a
nossa dependência e vulnerabilidade em relação a eles. Não dá mais para
ignorar que nossos corações só batem porque há um ser vivo na Terra que
armazena luz do sol, que nossos pulmões se enchem de oxigênio porque há um
ser vivo no oceano que produz um excedente, que a comida chega nos nossos
pratos através das abelhas, e por aí vai. Todos os seres vivos dependem de
todos os seres vivos, declaram os cientistas. Charles Darwin escreveu que
nada diferencia o ser humano dos demais animais, mas possuímos a capacidade
de separar as causas das conseqüências. Possuimos o nosso exosomatismo, que
torna o impacto das populações sobre os ecossistemas muito maior. Um urso
vem à Terra e vive só com seu próprio corpo, nós vivemos com carro, casas,
celulares, hotéis, barcos, ou seja, um monte de trecos.

Os ecossistemas não estão aí apenas para serem comidos, eles desempenham
funções vitais sem os quais não estaríamos vivos. O planeta Terra era
originariamente rocha, material semelhante ao sol, podendo até ser uma parte
dele, fruto de alguma explosão e se assemelha a um ovo, uma casca fina, que
é a nossa crosta terrestre, preenchida com o magma incandescente. A Terra,
bilhões de anos atrás não tinha água, que aqui foi trazida através do
bombardeamento continuo dos cometas, que são feitos de gêlo. Esse
bombardeamento de cometas impediria o surgimento da vida; estamos numa zona
sideral perigosíssima, mas Jupíter, um planeta gigante muito maior que a
Terra, ao nascer, com sua gravidade começou a atrair todos os elementos
móveis para si, dando paz cósmica à Terra. Foi criada a primeira condição da
vida desse planeta: sem Júpiter com certeza não estaríamos aqui.

Se a água entrou nos sistemas da Terra através dos cometas, então sabemos
que ela é finita. E de nada adianta dizer que a maior parte da água
salinizou e que resta ao ser humano desalinizar, porque o que fazer com o
sal? E os riscos para o equilíbrio oceânico? Toda vida desse planeta esteve
um dia somente na água e aos poucos os animais foram ganhando os
continentes. Mesmo assim, até hoje, 70% dos seres vivos estão nos oceanos. A
água é fundamental: nossos corpos são compostos 60% de água, nossa
reprodução sexuada é na água e o bebê nasce numa bacia de água. Água é vida,
um recurso finito que não foi preservado e que está sob intenso ataque de
todos os povos. A vida que segue inexplicada é uma bênção, os cientistas
quando descobriram o mundo atômico esperavam achar um átomo nos nossos
braços diferente dos átomos de uma mesa, mas descobriram que eram idênticos.
Nossos corpos são feitos de material estelar (parte do sol) e de água dos
cometas. É ou não é um milagre?

Mas o milagre maior está como todos os seres vivos mantém uma comunhão em
prol da vida, que sem ela, toda a teia desmorona e todos desaparecerão. Os
ecossistemas e sua biodiversidade não estão aí só para serem transformados
em atividades agrícolas ou econômicas, eles existem como reguladores
químicos do solo, do ar e da água e sem eles a Terra seria uma tocha
incandescente. A autora do livro Biomimicry escreveu que toda espécie que
não for capaz de compartilhar o ecossistema com outras espécies está fadada
a desaparecer. Lógicamente ela se referia a nós, onde os únicos bichos que
permitimos são ratos, pombos, baratas e pernilongos e que sempre somos
obrigados a matar ou exterminar.

Os ecossistemas se forem comidos além dos limites que garantem a sustentação
de toda a vida na Terra irão deixar de funcionar e quem irá perder será a
vida do planeta, onde nós somos uma pequena parte e bem vulnerável. Se
somarmos a massa de todas as bactérias desse planeta, ela será maior que a
massa de todos os nossos corpos juntos. Infelizmente, o ser humano no seu
sistema de consumo e produção que precisa ser refeito, acabamos destruindo
os ecossistemas ao ponto de termos produzido a maior extinção da vida na
Terra dos últimos 65 milhões de anos. E é muita ingenuidade achar que essa
extinção jamais irá se voltar contra os causadores.

O planeta é muito maior que a economia e as pessoas são muito maiores que a
economia. Na verdade a economia depende do planeta e das pessoas e não o
contrário. Adicionalmente, a economia não pode ser maior que o planeta e nós
temos só um planeta para obter paz entre os povos, equilíbrio e para poder
compartilhá-lo com os demais condôminos, ao invés de destruí-los, processo
que acabará destruindo a nós mesmos. Aos economistas cabe parar de colocar
ênfase em crescimento fazendo de conta que a economia é um bicho sem boca
nem estômago (de onde vem os recursos não importa) e sem intestino nem reto
(para onde vão os resíduos pouco interessa). Esse bicho só tem sistema
circulatório e não está em contato com o meio ambiente, poderia estar em
qualquer lugar, inclusive em Marte. A economia do descarte e do desperdício
ligada a uma montanha de mitos injustificáveis é também uma grande barreira
à sustentabilidade e nesse modelo mental, quando há fome, dizemos que falta
produção de alimentos e não que há desperdício (de fato, as classes mais
altas e os países ricos jogam um quarto da comida no lixo).

A sustentabilidade é uma mudança profunda, interna, voltada para novas
atitudes e para novos atores no cenário econômico, social e político. A boa
notícia é que depende de muito pouco: depende da vontade de cada um de nós e
quanto mais esse grupo aumentar, mais o impacto do nosso pensamento fará
diferença. Lembrem-se que tudo que existe à nossa volta esteve um dia na
mente de alguém. Vamos começar a pensar em como ter um mundo limpo, com
pessoas felizes e em equilíbrio, sem pressões desnecessárias e onde as
relações entre nós e com o planeta tenham um grau de respeito e humildade
muito grandes.**

**Hugo Penteado*

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