Economia, política, mudanças no comportamento do consumidor e a revolução digital estão produzindo uma das maiores transformações do ambiente empresarial brasileiro
Há um fenômeno preocupante acontecendo no Brasil: empresas tradicionais, algumas construídas ao longo de décadas, estão fechando suas portas, reduzindo estruturas, demitindo trabalhadores ou recorrendo à recuperação judicial. E não se trata apenas de empresas mal administradas. Em muitos casos, estamos diante da combinação de fatores econômicos, financeiros, políticos e tecnológicos que modificaram profundamente as regras do jogo empresarial.
Os números ajudam a dimensionar o problema. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil registrou 5.931 pedidos de recuperação judicial, o maior volume da série histórica do indicador criado em 2023. Entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, o número de recuperações judiciais cresceu 65,8%.
O caso recente das Casas Bahia tornou-se um dos símbolos dessa transformação. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial com uma dívida reconhecida de R$ 17,3 bilhões e anunciou o fechamento de quase 300 lojas.Mas por que isso está acontecendo?
O primeiro problema: o dinheiro ficou caro
Uma empresa pode ter bons produtos, clientes e uma marca conhecida, mas dificilmente sobrevive quando o custo do dinheiro se torna excessivamente elevado.
A Selic permanece em patamar de 14% ao ano, tornando empréstimos, financiamentos, capital de giro e renegociação de dívidas muito mais caros. Para empresas altamente endividadas, uma parcela significativa da receita deixa de financiar a operação e passa a servir simplesmente para pagar juros.
Cria-se então um círculo perigoso:
menos vendas → menor geração de caixa → necessidade de crédito → juros maiores → aumento da dívida → redução dos investimentos → perda de competitividade.
E quando esse ciclo se prolonga, até uma empresa que possui uma operação comercialmente interessante pode entrar em colapso financeiro.
O consumidor também mudou
Outro elemento fundamental é a transformação do consumidor brasileiro.
O cliente de hoje pesquisa antes de comprar. Compara preços em segundos. Consulta avaliações. Procura promoções. Compra pelo celular. Recebe produtos em casa. Utiliza marketplaces e acompanha influenciadores digitais.
A internet retirou das empresas físicas uma vantagem que durante décadas parecia quase absoluta: a proximidade geográfica com o consumidor.
Antes, uma loja precisava estar localizada em uma rua movimentada ou em um shopping para alcançar determinado público.
Hoje, uma empresa localizada em qualquer cidade pode vender para consumidores de praticamente todo o país.
Essa mudança democratizou o mercado, mas também aumentou brutalmente a concorrência.
A loja física deixou de ser suficiente
Durante décadas, o modelo empresarial brasileiro esteve baseado em uma lógica relativamente simples:
alugar ou comprar um imóvel → montar uma loja → contratar vendedores → colocar produtos nas prateleiras → esperar o consumidor.
Esse modelo funcionou durante muito tempo.
Mas o mundo mudou.
O consumidor passou a circular simultaneamente entre Instagram, WhatsApp, marketplaces, aplicativos, sites e lojas físicas.
O comércio eletrônico brasileiro continua crescendo e, em 2026, a integração entre canais físicos e digitais já é considerada essencial para o varejo.
A loja física, portanto, não desapareceu. Ela mudou de função.
Ela precisa oferecer experiência, relacionamento, confiança, demonstração do produto, atendimento especializado e integração com o ambiente digital.
Uma loja que existe apenas para vender aquilo que o consumidor pode encontrar mais barato na internet está diante de um problema estratégico.
O paradoxo da internet
A internet criou oportunidades extraordinárias para os pequenos empresários, mas também criou gigantescos concorrentes.
Uma pequena empresa pode hoje vender para o Brasil inteiro.
Por outro lado, precisa disputar a atenção do consumidor com empresas nacionais e internacionais que possuem enorme capacidade financeira, logística sofisticada, tecnologia, inteligência artificial, publicidade digital e escala.
A concorrência deixou de ser apenas entre empresas da mesma cidade.
O comércio de uma cidade passou a competir com o comércio do Brasil e, em muitos segmentos, com empresas do mundo inteiro.
Esse talvez seja um dos maiores choques enfrentados pelo comércio tradicional.
O custo da estrutura física
Existe ainda outro problema pouco discutido.
Uma empresa tradicional carrega uma estrutura pesada: aluguel, condomínio, IPTU, energia elétrica, segurança, manutenção, estoque, funcionários, mobiliário, equipamentos e tributos.
Uma operação digital pode, em determinados segmentos, funcionar com uma estrutura física muito menor.
Isso não significa que o comércio eletrônico seja barato. Ele possui custos próprios — tecnologia, marketing digital, logística, plataformas, devoluções, fretes e atendimento.
Mas a lógica econômica é diferente.
É justamente essa diferença que está obrigando muitas empresas tradicionais a reverem suas estruturas.
O fechamento de quase 300 lojas anunciado pelas Casas Bahia é um exemplo emblemático dessa transformação. Ao mesmo tempo em que reduz sua presença física, a companhia busca concentrar esforços em canais e operações considerados mais rentáveis.
O problema político e a insegurança para investir
Existe também uma dimensão política.
Empresas precisam de previsibilidade.
Investimentos importantes não são feitos pensando apenas no presente. Uma fábrica, uma loja, um centro de distribuição ou uma nova operação podem exigir milhões de reais e planejamento para dez ou vinte anos.
Quando existe percepção de instabilidade fiscal, mudanças frequentes nas regras, aumento da carga tributária, incerteza regulatória ou forte polarização política, o empresário tende a adotar uma postura defensiva.
Em vez de investir, contrata menos.
Em vez de abrir uma filial, espera.
Em vez de assumir uma dívida para crescer, preserva caixa.
Em vez de expandir, reduz custos.
A economia perde dinamismo.
E existe uma questão ainda mais importante: não podemos atribuir todos os problemas empresariais exclusivamente ao governo de plantão.
O Brasil carrega problemas estruturais há décadas: juros historicamente elevados, sistema tributário complexo, burocracia, insegurança jurídica, baixa produtividade, infraestrutura deficiente e dificuldades de acesso ao crédito.
Governos diferentes podem agravar ou amenizar essas questões, mas muitas delas ultrapassam ciclos eleitorais.
A inadimplência fecha o círculo
Não podemos esquecer que empresas vendem para pessoas.
Quando as famílias enfrentam dificuldades financeiras, o consumo diminui ou passa a ser financiado por crédito.
A inadimplência das famílias aumenta e, consequentemente, as empresas também passam a receber com maior dificuldade.
O problema se espalha pela cadeia:
família endividada → menor consumo → comércio vende menos → empresa reduz produção → fornecedores recebem menos → empregos são afetados → renda diminui → consumo cai novamente.
Projeções recentes apontam continuidade da pressão sobre a capacidade de pagamento das famílias brasileiras.
Mas há também erros empresariais
Seria injusto colocar toda a responsabilidade no cenário econômico.
Algumas empresas quebram porque demoraram para perceber que o mercado havia mudado.
Continuaram investindo em lojas quando o consumidor estava migrando para o digital.
Mantiveram estoques elevados.
Assumiram dívidas para financiar expansão.
Não acompanharam seus indicadores financeiros.
Confundiram faturamento com lucro.
E, talvez o erro mais grave, confundiram tradição com garantia de futuro.
Uma marca conhecida não significa necessariamente uma empresa preparada para o amanhã.
A história empresarial brasileira possui inúmeros exemplos de companhias que foram gigantes em determinado momento e desapareceram porque não conseguiram acompanhar as transformações do mercado.
O futuro não será físico nem digital. Será híbrido.
A grande questão não é escolher entre loja física ou internet.
É compreender que o consumidor já vive nos dois mundos.
Ele pode descobrir um produto pelo Instagram, pesquisar no Google, comparar preços em um marketplace, conversar com o vendedor pelo WhatsApp, visitar uma loja para experimentar o produto e finalmente comprar pelo celular.
O empresário que compreender essa jornada terá vantagem.
A loja física poderá funcionar como showroom, centro de experiência, ponto de retirada, assistência técnica e espaço de relacionamento.
A internet será o ambiente de descoberta, comparação, venda e relacionamento.
O futuro pertence à integração.
A inteligência artificial acelera a transformação
E ainda estamos apenas no começo.
A inteligência artificial está mudando marketing, atendimento, vendas, logística, administração, análise financeira e relacionamento com clientes.
Uma pequena empresa que utiliza adequadamente ferramentas de IA pode produzir campanhas, analisar dados, responder clientes, organizar processos e automatizar tarefas que antes exigiam equipes inteiras.
Isso significa que a tecnologia não está apenas criando novos negócios.
Ela está diminuindo a necessidade de determinadas estruturas tradicionais.
E essa transformação inevitavelmente produzirá vencedores e perdedores.
A empresa do futuro será mais leve
Talvez uma das principais lições desse momento seja a necessidade de abandonar a ideia de que uma grande empresa precisa necessariamente ter uma grande estrutura física.
O futuro empresarial provavelmente será marcado por organizações mais enxutas, tecnológicas, flexíveis e orientadas por dados.
Empresas precisarão conhecer profundamente seus clientes, controlar rigorosamente o caixa, utilizar tecnologia, desenvolver pessoas e ter capacidade de mudar rapidamente.
Não será mais suficiente perguntar:
"Quanto estamos vendendo?"
Será necessário perguntar:
"Quanto estamos ganhando, quanto custa nossa estrutura, quanto custa nosso cliente e quanto tempo conseguimos sobreviver se as vendas caírem?"
Essa mudança de mentalidade pode determinar a sobrevivência.
Não estamos apenas diante de uma crise. Estamos diante de uma mudança de era.
Talvez seja esse o ponto central.
As empresas que estão quebrando não estão necessariamente desaparecendo apenas por causa da crise econômica.
Muitas estão desaparecendo porque o mundo empresarial que as criou deixou de existir.
Os juros altos aceleram o problema.
A inflação pressiona.
A política gera incerteza.
A inadimplência reduz o consumo.
A internet modifica o comportamento do consumidor.
Os marketplaces aumentam a concorrência.
A inteligência artificial transforma a produtividade.
E as lojas físicas precisam justificar sua existência de uma maneira completamente diferente.
Por isso, a pergunta mais importante para um empresário brasileiro não deveria ser apenas:
"Como sobreviver à crise?"
Talvez seja:
"Que empresa preciso construir para sobreviver ao mundo que está nascendo?"
Essa é uma pergunta muito mais difícil.
Mas também é a pergunta que pode separar as empresas que apenas resistirão às dificuldades daquelas que conseguirão crescer no novo Brasil.
Porque crises econômicas passam.
Governos mudam.
Juros sobem e descem.
Tecnologias são substituídas.
Mas uma coisa permanece: a empresa que consegue compreender o consumidor, adaptar-se ao mercado e administrar com responsabilidade sempre terá maiores possibilidades de permanecer viva.
No Brasil de hoje, sobreviver já é um desafio.
Mas reinventar-se deixou de ser uma opção. Tornou-se uma condição para continuar existindo.
Vitor M S Marques
Executivo de RH, Palestrante, Jornalista e Terapeuta Radiestésico
