(Publicação Jornal A Voz de Serpins - Serpins - Portuga EM ABR/2026)
Há um silêncio que só as
pequenas aldeias sabem guardar. Não é o silêncio do vazio, mas o da memória.
Caminhar por Serpins é como folhear um livro antigo, daqueles que não se leem
com pressa, mas com respeito — porque cada esquina, cada pedra, cada varanda
tem algo a dizer.
Você que anda por Serpins
aprecia sua cidade do ponto de vista da história? Você enxerga que todos seus
antepassados pisaram passaram pelos mesmos lugares que você hoje passa? O que
pensavam? Qula era a pressa que tinham ou melhor, não tinham? Quais foram as
alegrias transportadas em cada passo?
Num tempo em que as cidades
crescem para cima e para dentro, engolindo histórias em nome da pressa, há um
valor quase resistente em preservar o que é pequeno. Pequeno no tamanho, mas
imenso no significado. Aldeias como Serpins não são apenas pontos no mapa; são
arquivos vivos de uma identidade que não cabe em arquivos digitais nem em
fotografias apressadas.
Ali, o tempo não é um inimigo
a vencer, mas um companheiro a escutar. As casas antigas, com as suas paredes
gastas e portas que rangem, não pedem modernização — pedem continuidade. Porque
há uma diferença subtil, mas profunda, entre restaurar e substituir. Restaurar
é cuidar da memória; substituir é esquecê-la com aparência de progresso.
Preservar a história de
pequenas aldeias portuguesas é, antes de tudo, preservar a nossa própria forma
de existir. É garantir que as novas gerações saibam de onde vêm, não apenas em
termos geográficos, mas culturais e humanos. É lembrar que houve um tempo em
que as relações eram feitas à porta de casa, em conversas demoradas, e não
mediadas por ecrãs luminosos.
Mas há um risco silencioso a
rondar estes lugares: o abandono. Não o abandono físico apenas, mas o abandono
simbólico — aquele que acontece quando deixamos de valorizar o que não está na
moda, o que não gera lucro imediato, o que não se transforma facilmente em
tendência. E é precisamente aí que reside o perigo maior: quando uma aldeia
deixa de ser vivida, ela começa, pouco a pouco, a desaparecer.
Ainda assim, há esperança.
Ela vive nas mãos de quem decide ficar, de quem regressa, e de quem, mesmo de
fora, reconhece o valor de proteger. Preservar não é congelar no tempo; é
permitir que a história continue a ser escrita sem apagar as páginas anteriores.
Serpins, como tantas outras
aldeias, não pede muito. Pede apenas que a escutem. Que caminhem devagar pelas
suas ruas. Que reparem nos detalhes. Que entendam que ali não está apenas um
lugar, mas um legado.
E talvez, ao fazê-lo,
descubramos algo que as grandes cidades já nos fizeram esquecer: que o futuro
também precisa de raízes.
Vitor Manuel Simões Marques
Executivo de RH, palestrante,
escritor e jornalista
Campinas / SP – Brasil
(Neto de Serpins)
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