27/05/2026

OS PASSOS QUE DOU E NÃO VEJO! A HISTÓRIA QUE SE FUNDE COM O PRESENTE E FUTURO A SOBREVIVÊNCIA DO SER E NÃO DO APENAS FICAR!



(Publicação Jornal A Voz de Serpins - Serpins - Portuga EM ABR/2026)

Há um silêncio que só as pequenas aldeias sabem guardar. Não é o silêncio do vazio, mas o da memória. Caminhar por Serpins é como folhear um livro antigo, daqueles que não se leem com pressa, mas com respeito — porque cada esquina, cada pedra, cada varanda tem algo a dizer.

 Você que anda por Serpins aprecia sua cidade do ponto de vista da história? Você enxerga que todos seus antepassados pisaram passaram pelos mesmos lugares que você hoje passa? O que pensavam? Qula era a pressa que tinham ou melhor, não tinham? Quais foram as alegrias transportadas em cada passo?

 Num tempo em que as cidades crescem para cima e para dentro, engolindo histórias em nome da pressa, há um valor quase resistente em preservar o que é pequeno. Pequeno no tamanho, mas imenso no significado. Aldeias como Serpins não são apenas pontos no mapa; são arquivos vivos de uma identidade que não cabe em arquivos digitais nem em fotografias apressadas.

 Ali, o tempo não é um inimigo a vencer, mas um companheiro a escutar. As casas antigas, com as suas paredes gastas e portas que rangem, não pedem modernização — pedem continuidade. Porque há uma diferença subtil, mas profunda, entre restaurar e substituir. Restaurar é cuidar da memória; substituir é esquecê-la com aparência de progresso.

Preservar a história de pequenas aldeias portuguesas é, antes de tudo, preservar a nossa própria forma de existir. É garantir que as novas gerações saibam de onde vêm, não apenas em termos geográficos, mas culturais e humanos. É lembrar que houve um tempo em que as relações eram feitas à porta de casa, em conversas demoradas, e não mediadas por ecrãs luminosos.

 Mas há um risco silencioso a rondar estes lugares: o abandono. Não o abandono físico apenas, mas o abandono simbólico — aquele que acontece quando deixamos de valorizar o que não está na moda, o que não gera lucro imediato, o que não se transforma facilmente em tendência. E é precisamente aí que reside o perigo maior: quando uma aldeia deixa de ser vivida, ela começa, pouco a pouco, a desaparecer.

 Ainda assim, há esperança. Ela vive nas mãos de quem decide ficar, de quem regressa, e de quem, mesmo de fora, reconhece o valor de proteger. Preservar não é congelar no tempo; é permitir que a história continue a ser escrita sem apagar as páginas anteriores.

 Serpins, como tantas outras aldeias, não pede muito. Pede apenas que a escutem. Que caminhem devagar pelas suas ruas. Que reparem nos detalhes. Que entendam que ali não está apenas um lugar, mas um legado.

E talvez, ao fazê-lo, descubramos algo que as grandes cidades já nos fizeram esquecer: que o futuro também precisa de raízes.

 

Vitor Manuel Simões Marques

Executivo de RH, palestrante, escritor e jornalista

Campinas / SP – Brasil

(Neto de Serpins)

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