26/05/2026

QUANDO PORTUGAL JOGA, O MUNDO PORTUGUÊS SE ENCONTRA

 (Publicação Jornal A Voz de Serpins - Serpins - Portuga EM MAI/2026)

Há qualquer coisa de mágico quando começa uma Copa do Mundo. Não é apenas futebol. Nunca foi apenas futebol. É como se o tempo desacelerasse por noventa minutos e milhões de pessoas, espalhadas pelos quatro cantos do planeta, passassem a respirar no mesmo ritmo.

 Portugal conhece bem esse sentimento.

 Nas ruas de Lisboa, nas aldeias do interior, nos cafés do Porto, nas varandas do Algarve, mas também em Paris, Luxemburgo, Newark, Toronto, Rio de Janeiro, Luanda ou Genebra, há bandeiras que reaparecem das gavetas, cachecóis que voltam ao pescoço e vozes que se unem num mesmo grito. Portugueses que talvez já não falem diariamente a língua com perfeição, filhos e netos de emigrantes que carregam o país no apelido, no sotaque herdado ou numa saudade que nunca visitou um mapa, reencontram-se emocionalmente através da seleção.

 Durante uma Copa, o oceano deixa de separar. Aproxima.

O futebol cria uma rara suspensão das diferenças. Pouco importa a profissão, a posição política, a conta bancária ou o lugar onde cada um escolheu viver. Por instantes, existe apenas um objetivo comum: acreditar. E talvez seja exatamente isso que mais emocione — a capacidade humana de caminhar junta quando existe um sentimento coletivo maior do que o indivíduo.

É curioso perceber como a consciência coletiva se transforma nesses dias. Pessoas que normalmente mal se cumprimentam conversam nas ruas. Cafés silenciosos tornam-se espaços de abraço. Estranhos celebram juntos como velhos amigos. O padeiro, o médico, o estudante, o reformado e o emigrante distante passam a partilhar a mesma ansiedade, o mesmo sorriso e até a mesma superstição.

A pergunta inevitável é: por que conseguimos fazer isso apenas no futebol?

Talvez porque o futebol seja um dos últimos territórios onde ainda nos permitimos sentir pertença sem vergonha. Num tempo em que o individualismo cresce, em que as pessoas se isolam atrás de ecrãs e opiniões, a seleção nacional ainda consegue lembrar que existe força no coletivo.

 E essa talvez seja a maior lição escondida numa Copa do Mundo.

A união de consciências em torno de um objetivo comum não deveria surgir apenas diante de um relvado. Um país também se constrói quando a sua gente se une para defender valores essenciais: dignidade, respeito, educação, solidariedade, memória, cultura e humanidade. O mesmo fervor que pinta ruas de verde e vermelho poderia igualmente mover sociedades mais justas, comunidades mais humanas e relações menos indiferentes.

Portugal espalhou-se pelo mundo há séculos. Levou língua, cultura, trabalho e coragem para continentes inteiros. Hoje, os portugueses espalhados pelo planeta continuam a provar que a identidade não vive apenas no território — vive sobretudo no sentimento de pertença.

E talvez seja isso que uma Copa revela com tanta beleza: um país não é apenas uma geografia. É uma consciência coletiva. É a capacidade de milhões de pessoas sentirem-se parte da mesma história, mesmo quando separadas por oceanos.

Quando Portugal entra em campo, algo maior também entra. Entram memórias de infância, histórias de família, emigrantes que partiram para procurar futuro, avós que ensinaram o hino, crianças que descobrem pela primeira vez o orgulho de pertencer.

No fundo, o futebol apenas acende uma chama que já existia.

A verdadeira questão é o que fazemos com essa chama quando o campeonato termina.

Porque se a humanidade fosse capaz de se unir em torno da paz, da empatia e do bem comum com a mesma intensidade com que se une por uma bola a atravessar uma baliza, talvez o mundo inteiro pudesse finalmente jogar na mesma equipa.

 Até breve!

Vitor Manuel Simões Marques

Executivo de RH, palestrante, escritor e jornalista

Campinas / SP – Brasil

(Neto de Serpins – Filho de Portugal)

 

 



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