Há datas que o calendário manda comemorar. O 7 de Setembro é uma delas. Colocamos a bandeira na janela, ouvimos o hino, assistimos aos desfiles, lembramos Dom Pedro às margens do Ipiranga e repetimos, quase automaticamente: “Independência ou Morte!”
Bonito. Patriótico.
Histórico. Mas será que alguém já parou para perguntar o que aconteceu
depois?
Porque,
se formos olhar com um pouco menos de romantismo para a nossa História, talvez
descubramos que a independência brasileira ainda esteja em construção.
E
olha que já se passaram mais de duzentos anos. A famosa frase atribuída a D.
Pedro entrou para os livros escolares como o grande grito de nascimento de uma
nação. O problema é que, ao longo desses séculos, o Brasil parece ter
desenvolvido uma habilidade extraordinária: mudar os discursos sem mudar
suficientemente a realidade.
Continuamos falando em liberdade. Continuamos falando em igualdade. Continuamos falando em justiça. Continuamos prometendo educação, saúde, segurança, oportunidades e dignidade.
E
continuamos esperando. Esperando o próximo governo. A próxima eleição. O
próximo salvador da pátria. O próximo discurso inflamado. Talvez o problema
seja justamente esse.
Esperamos
demais.
Enquanto
esperamos, há crianças que não esperam. Sentem fome. Há famílias que não
esperam. Enfrentam filas. Há jovens que não esperam. Abandonam seus sonhos
porque as oportunidades não chegaram. Há trabalhadores que não esperam. Aceitam
condições que jamais deveriam ser consideradas normais. E há milhões de
brasileiros que acordam todos os dias para lutar por aquilo que deveria ser
básico: viver com dignidade.
Então
eu pergunto:
Independência
de quem?
Somos
independentes de Portugal, sim. Mas somos independentes da pobreza? Da
corrupção? Da desigualdade? Da violência? Do preconceito? Da ignorância? Da
incompetência? Do fisiologismo político? Da velha prática de prometer muito
antes das eleições e entregar pouco depois delas? Talvez não.
E
existe uma morte muito mais perigosa do que aquela anunciada no grito do
Ipiranga.
É
a morte silenciosa. A morte da esperança. A morte da educação. A morte da
cultura. A morte da ética. A morte da capacidade de indignação.
Porque
um povo pode sobreviver à pobreza. Pode sobreviver às crises econômicas. Pode
reconstruir cidades destruídas. Pode superar tragédias.
Mas
quando perde a capacidade de se indignar diante do absurdo, começa a morrer por
dentro.
E
isso é muito mais perigoso.
O
Brasil não pode se acostumar com crianças vivendo sem alimentação adequada. Não
pode considerar normal uma escola sem condições. Não pode aceitar hospitais que
não conseguem atender quem precisa. Não pode naturalizar a violência. Não pode
achar engraçado o preconceito. Não pode transformar corrupção em esperteza. Não
pode considerar incompetência uma característica inevitável da política. E não
pode continuar tratando a cultura como luxo. Um país que abandona sua cultura
abandona parte da própria memória. Mas existe algo que ainda me dá esperança.
Os
jovens.
Eles
podem ser barulhentos demais, inquietos demais, conectados demais e, algumas
vezes, até impacientes demais.
Ainda
bem! Prefiro uma juventude inquieta a uma juventude conformada. Prefiro jovens
questionando do que jovens aceitando tudo. Prefiro quem pergunta “por quê?” a
quem simplesmente responde “sempre foi assim”. Talvez esteja justamente nessa
inquietação a possibilidade de construirmos um novo Brasil. Um Brasil que não
precise esperar mais duzentos anos para descobrir que independência não é
apenas uma palavra bonita estampada em um livro de História. Independência é
poder escolher.
É
poder estudar. É poder trabalhar. É poder empreender. É poder discordar. É
poder envelhecer com dignidade. É poder criar os filhos com segurança. É poder
acreditar no amanhã. É poder viver. Por isso, talvez esteja na hora de reciclar
o grito do Ipiranga.
Não
quero mais um país obrigado a escolher entre independência e morte. Quero
independência e vida. Aliás, quero mais.
Quero
INDEPENDÊNCIA OU VIDA!
Vida
para quem nasce pobre. Vida para quem nasce rico. Vida para quem mora na
periferia.
Vida
para quem mora nos condomínios. Vida para quem tem deficiência. Vida para quem
é diferente. Vida para quem pensa diferente. Vida para quem chegou de longe e
escolheu o Brasil para viver. Vida para todos. Porque pátria não deveria ser
apenas o território delimitado em um mapa.
Pátria
é aquilo que fazemos uns pelos outros dentro desse território. E aqui entra uma
palavra que talvez incomode: responsabilidade. Nós também somos
responsáveis pelo país que temos. É muito fácil colocar toda a culpa nos
políticos. É confortável. Elegemos e depois reclamamos. Reclamamos e depois
elegemos novamente. E, de quatro em quatro anos, repetimos o ritual. Promessas,
santinhos, discursos, abraços, apertos de mão, fotografias e aquela velha
promessa de que agora vai. Depois descobrimos que não foi. Talvez esteja na
hora de mudar o método. Na próxima eleição, antes de perguntar se o candidato é
simpático, famoso ou pertence ao nosso grupo político, deveríamos perguntar:
Qual
é o projeto?
O
que ele pretende fazer? Como pretende fazer? Quanto vai custar? Qual é o prazo?
Quem será beneficiado? E, principalmente: Que Brasil ele pretende entregar
aos nossos filhos e netos?
Porque
democracia não é apenas o direito de votar. É também o dever de escolher com
responsabilidade. Não precisamos de salvadores. Precisamos de gente preparada.
Não
precisamos de políticos que saibam fazer discursos. Precisamos de políticos que
saibam fazer gestão. Não precisamos de quem viva olhando para a próxima
eleição. Precisamos de quem consiga enxergar a próxima geração. E talvez seja
exatamente essa a nossa verdadeira independência. A independência de pensar. A
independência de questionar. A independência de não aceitar qualquer
explicação. A independência de não vender nosso voto por pequenas vantagens. A
independência de compreender que o país não é propriedade de governos, partidos
ou grupos econômicos.
O
Brasil é nosso.
De
todos nós.E se queremos mudar a História, precisamos parar de esperar que algum
Dom Pedro moderno apareça às margens de algum rio para resolver nossas vidas.
O
novo grito precisa sair de cada cidadão. Da escola. Da empresa. Da família. Da
comunidade. Da urna eletrônica. Da consciência. Não será um grito de um homem.
Será
um grito de milhões. E talvez, nos 7 de setembro de todo dia, devêssemos olhar
para a nossa bandeira e fazer uma pergunta simples, mas incômoda:
Que
independência estamos comemorando? A
política ainda não é independente dos interesses pessoais. A economia ainda não
é independente das desigualdades.
A
educação ainda não é independente do abandono. A cultura ainda não é
independente do descaso.
E
milhões de brasileiros ainda não são independentes da fome, do medo e da falta
de oportunidades. Então, sim, vamos comemorar o 7 de setembro todo dia com
atitudes práticas. Mas vamos também provocar. Vamos questionar. Vamos pensar.
Porque
patriotismo não é fechar os olhos para os problemas do país. Patriotismo é
ter coragem de enxergá-los. E mais coragem ainda para tentar
transformá-los.
Que
o próximo 7 de setembro não seja apenas uma celebração do passado.
Que
seja um compromisso com o futuro. Que o velho “Independência ou Morte!” possa
finalmente ganhar uma nova interpretação. Uma interpretação mais humana. Mais
democrática. Mais brasileira.
INDEPENDÊNCIA
OU VIDA!
Porque
a verdadeira independência será alcançada no dia em que nenhum brasileiro
precise escolher entre sobreviver e viver. Nesse dia, talvez possamos
finalmente dizer:
Agora
sim. Somos independentes.
Vitor
Marques
Executivo de RH, Escritor, Jornalista e Palestrante

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