08/09/2026

TODO DIA - INDEPENDÊNCIA... OU VIDA? <> 7 DE SETEMBRO... NEM TANTO

Há datas que o calendário manda comemorar. O 7 de Setembro é uma delas. Colocamos a bandeira na janela, ouvimos o hino, assistimos aos desfiles, lembramos Dom Pedro às margens do Ipiranga e repetimos, quase automaticamente: “Independência ou Morte!”

Bonito.  Patriótico.  Histórico. Mas será que alguém já parou para perguntar o que aconteceu depois?

Porque, se formos olhar com um pouco menos de romantismo para a nossa História, talvez descubramos que a independência brasileira ainda esteja em construção.

E olha que já se passaram mais de duzentos anos. A famosa frase atribuída a D. Pedro entrou para os livros escolares como o grande grito de nascimento de uma nação. O problema é que, ao longo desses séculos, o Brasil parece ter desenvolvido uma habilidade extraordinária: mudar os discursos sem mudar suficientemente a realidade.

Continuamos falando em liberdade. Continuamos falando em igualdade. Continuamos falando em justiça. Continuamos prometendo educação, saúde, segurança, oportunidades e dignidade.

E continuamos esperando. Esperando o próximo governo. A próxima eleição. O próximo salvador da pátria. O próximo discurso inflamado. Talvez o problema seja justamente esse.

Esperamos demais.

Enquanto esperamos, há crianças que não esperam. Sentem fome. Há famílias que não esperam. Enfrentam filas. Há jovens que não esperam. Abandonam seus sonhos porque as oportunidades não chegaram. Há trabalhadores que não esperam. Aceitam condições que jamais deveriam ser consideradas normais. E há milhões de brasileiros que acordam todos os dias para lutar por aquilo que deveria ser básico: viver com dignidade.

Então eu pergunto:

Independência de quem?

Somos independentes de Portugal, sim. Mas somos independentes da pobreza? Da corrupção? Da desigualdade? Da violência? Do preconceito? Da ignorância? Da incompetência? Do fisiologismo político? Da velha prática de prometer muito antes das eleições e entregar pouco depois delas? Talvez não.

E existe uma morte muito mais perigosa do que aquela anunciada no grito do Ipiranga.

É a morte silenciosa. A morte da esperança. A morte da educação. A morte da cultura. A morte da ética. A morte da capacidade de indignação.

Porque um povo pode sobreviver à pobreza. Pode sobreviver às crises econômicas. Pode reconstruir cidades destruídas. Pode superar tragédias.

Mas quando perde a capacidade de se indignar diante do absurdo, começa a morrer por dentro.

E isso é muito mais perigoso.

O Brasil não pode se acostumar com crianças vivendo sem alimentação adequada. Não pode considerar normal uma escola sem condições. Não pode aceitar hospitais que não conseguem atender quem precisa. Não pode naturalizar a violência. Não pode achar engraçado o preconceito. Não pode transformar corrupção em esperteza. Não pode considerar incompetência uma característica inevitável da política. E não pode continuar tratando a cultura como luxo. Um país que abandona sua cultura abandona parte da própria memória. Mas existe algo que ainda me dá esperança.

Os jovens.

Eles podem ser barulhentos demais, inquietos demais, conectados demais e, algumas vezes, até impacientes demais.

Ainda bem! Prefiro uma juventude inquieta a uma juventude conformada. Prefiro jovens questionando do que jovens aceitando tudo. Prefiro quem pergunta “por quê?” a quem simplesmente responde “sempre foi assim”. Talvez esteja justamente nessa inquietação a possibilidade de construirmos um novo Brasil. Um Brasil que não precise esperar mais duzentos anos para descobrir que independência não é apenas uma palavra bonita estampada em um livro de História. Independência é poder escolher.

É poder estudar. É poder trabalhar. É poder empreender. É poder discordar. É poder envelhecer com dignidade. É poder criar os filhos com segurança. É poder acreditar no amanhã. É poder viver. Por isso, talvez esteja na hora de reciclar o grito do Ipiranga.

Não quero mais um país obrigado a escolher entre independência e morte. Quero independência e vida. Aliás, quero mais.

Quero INDEPENDÊNCIA OU VIDA!

Vida para quem nasce pobre. Vida para quem nasce rico. Vida para quem mora na periferia.

Vida para quem mora nos condomínios. Vida para quem tem deficiência. Vida para quem é diferente. Vida para quem pensa diferente. Vida para quem chegou de longe e escolheu o Brasil para viver. Vida para todos. Porque pátria não deveria ser apenas o território delimitado em um mapa.

Pátria é aquilo que fazemos uns pelos outros dentro desse território. E aqui entra uma palavra que talvez incomode: responsabilidade. Nós também somos responsáveis pelo país que temos. É muito fácil colocar toda a culpa nos políticos. É confortável. Elegemos e depois reclamamos. Reclamamos e depois elegemos novamente. E, de quatro em quatro anos, repetimos o ritual. Promessas, santinhos, discursos, abraços, apertos de mão, fotografias e aquela velha promessa de que agora vai. Depois descobrimos que não foi. Talvez esteja na hora de mudar o método. Na próxima eleição, antes de perguntar se o candidato é simpático, famoso ou pertence ao nosso grupo político, deveríamos perguntar:

Qual é o projeto?

O que ele pretende fazer? Como pretende fazer? Quanto vai custar? Qual é o prazo? Quem será beneficiado? E, principalmente: Que Brasil ele pretende entregar aos nossos filhos e netos?

Porque democracia não é apenas o direito de votar. É também o dever de escolher com responsabilidade. Não precisamos de salvadores. Precisamos de gente preparada.

Não precisamos de políticos que saibam fazer discursos. Precisamos de políticos que saibam fazer gestão. Não precisamos de quem viva olhando para a próxima eleição. Precisamos de quem consiga enxergar a próxima geração. E talvez seja exatamente essa a nossa verdadeira independência. A independência de pensar. A independência de questionar. A independência de não aceitar qualquer explicação. A independência de não vender nosso voto por pequenas vantagens. A independência de compreender que o país não é propriedade de governos, partidos ou grupos econômicos.

O Brasil é nosso.

De todos nós.E se queremos mudar a História, precisamos parar de esperar que algum Dom Pedro moderno apareça às margens de algum rio para resolver nossas vidas.

O novo grito precisa sair de cada cidadão. Da escola. Da empresa. Da família. Da comunidade. Da urna eletrônica. Da consciência. Não será um grito de um homem.

Será um grito de milhões. E talvez, nos 7 de setembro de todo dia, devêssemos olhar para a nossa bandeira e fazer uma pergunta simples, mas incômoda:

Que independência estamos comemorando? A política ainda não é independente dos interesses pessoais. A economia ainda não é independente das desigualdades.

A educação ainda não é independente do abandono. A cultura ainda não é independente do descaso.

E milhões de brasileiros ainda não são independentes da fome, do medo e da falta de oportunidades. Então, sim, vamos comemorar o 7 de setembro todo dia com atitudes práticas. Mas vamos também provocar. Vamos questionar. Vamos pensar.

Porque patriotismo não é fechar os olhos para os problemas do país. Patriotismo é ter coragem de enxergá-los. E mais coragem ainda para tentar transformá-los.

Que o próximo 7 de setembro não seja apenas uma celebração do passado.

Que seja um compromisso com o futuro. Que o velho “Independência ou Morte!” possa finalmente ganhar uma nova interpretação. Uma interpretação mais humana. Mais democrática. Mais brasileira.

INDEPENDÊNCIA OU VIDA!

Porque a verdadeira independência será alcançada no dia em que nenhum brasileiro precise escolher entre sobreviver e viver. Nesse dia, talvez possamos finalmente dizer:

Agora sim. Somos independentes.

 

Vitor Marques
Executivo de RH, Escritor, Jornalista e Palestrante

 

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