Ser
criança nunca foi uma experiência igual para todas as gerações. Cada época
constrói sua própria infância, marcada pela cultura, pela tecnologia, pelos
valores familiares e pela maneira como a sociedade enxerga o tempo, a educação
e as relações humanas. Comparar a infância das décadas de 1980 e 1990 com a
infância atual é, portanto, mais do que recordar brincadeiras antigas. É
refletir sobre o quanto mudamos — e sobre aquilo que talvez tenhamos perdido
pelo caminho.
Para
quem viveu a infância nos anos 1980 e 1990, havia uma liberdade que hoje parece
quase inimaginável. Depois da escola, a rua era uma extensão da casa.
Bicicletas, bolas, carrinhos, bonecas, pipas, amarelinha, esconde-esconde e
pega-pega faziam parte da rotina. As crianças saíam para brincar e, muitas
vezes, só voltavam quando alguém gritava da janela ou da porta: “Está na hora
de entrar!”.
Não
havia necessidade de marcar previamente um encontro pelo celular. Bastava
aparecer na rua. Os amigos estavam lá.
Esperar
fazia parte da vida.
Esperava-se
pelo próximo capítulo, pelo programa da semana seguinte, pela visita de um
amigo, pelas férias, pelo aniversário e até pelas fotografias que seriam
reveladas depois de levadas para a loja. A ansiedade fazia parte da
experiência, mas também ensinava, silenciosamente, a lidar com a espera.
Hoje,
uma criança pode carregar no bolso um universo inteiro. Celular, tablet,
videogame, plataformas de streaming, redes sociais, inteligência artificial e
jogos on-line oferecem entretenimento praticamente ilimitado. A informação
chega em segundos. A comunicação acontece instantaneamente. Os amigos podem
estar a quilômetros de distância e, ainda assim, conversar diariamente.
É
uma infância com possibilidades extraordinárias.
Mas
também é uma infância cercada por estímulos.
A
criança contemporânea é exposta a uma quantidade de informações que nenhuma
geração anterior conheceu tão cedo. Imagens, sons, vídeos, notificações, jogos,
publicidade e conteúdos produzidos especialmente para prender sua atenção
disputam permanentemente seus olhos e sua mente.
Nas
décadas de 1980 e 1990, o tédio era comum. E talvez esse seja um dos grandes
contrastes entre as duas épocas.
Quando
não havia nada para fazer, a criança precisava inventar alguma coisa. Uma caixa
de papelão podia virar uma casa. Um pedaço de madeira podia transformar-se em
espada. Um lençol podia virar uma cabana. O quintal podia ser uma floresta, um
estádio ou um planeta desconhecido.
O
imaginário precisava trabalhar.
Hoje,
muitas vezes, basta tocar na tela.
Isso
não significa que a infância atual seja pior. Seria injusto romantizar o
passado. As crianças de décadas anteriores também enfrentavam dificuldades.
Havia menos acesso à informação, menos recursos educacionais e tecnológicos e,
em muitas famílias, maior ausência dos adultos devido às exigências do
trabalho. Nem tudo era idílico.
A
diferença é que os riscos eram outros.
A
criança que brincava na rua estava mais exposta aos perigos físicos, enquanto a
criança de hoje pode estar protegida dentro de casa e, ao mesmo tempo, exposta
a riscos virtuais, excesso de informação, comparação social e relações digitais
que os adultos nem sempre conseguem acompanhar.
Também
mudou a relação com os pais.
Nas
décadas de 1980 e 1990, era comum uma educação mais baseada em regras claras e
autoridade. “Porque eu sou seu pai” ou “porque eu sou sua mãe” muitas vezes era
uma explicação suficiente. Hoje, felizmente, avançamos em muitos aspectos da
educação, valorizando mais o diálogo, a escuta e o respeito à individualidade
da criança.
Mas
esse avanço também trouxe novos desafios.
Pais
e mães vivem uma rotina acelerada, muitas vezes divididos entre trabalho,
responsabilidades domésticas e preocupações financeiras. E, paradoxalmente, em
uma época em que temos mais ferramentas para nos comunicar, podemos ter menos
tempo para simplesmente estar juntos.
Talvez
essa seja uma das maiores questões da infância contemporânea: a presença
física nem sempre significa presença emocional.
Uma
criança pode estar sentada ao lado dos pais enquanto todos olham para suas
próprias telas.
Na
infância de antigamente, a mesa de jantar, a conversa na calçada, a visita à
casa dos avós e as brincadeiras coletivas eram oportunidades naturais de
convivência. Hoje, essas experiências precisam ser protegidas e, muitas vezes,
planejadas.
Há
ainda outra diferença importante: a relação com o tempo.
A
criança dos anos 1980 e 1990 aprendia naturalmente que algumas coisas
demoravam. O mundo tinha um ritmo mais lento. Hoje, estamos acostumados à
velocidade. Queremos respostas imediatas, entregas rápidas, entretenimento
instantâneo e comunicação em tempo real.
E
as crianças aprendem esse comportamento desde muito cedo.
Talvez
o grande desafio dos adultos seja ensinar que nem tudo precisa acontecer
imediatamente.
Ensinar
uma criança a esperar, ouvir, observar, brincar, conversar, caminhar, criar e
até ficar entediada pode ser tão importante quanto ensiná-la a utilizar a
tecnologia.
Porque
tecnologia não é inimiga da infância.
O
problema começa quando ela ocupa o espaço que deveria pertencer à experiência
humana.
Uma
criança precisa conhecer o mundo digital, mas também precisa conhecer a terra.
Precisa aprender a pesquisar na internet, mas também precisa aprender a
conversar olhando nos olhos. Precisa jogar videogame, mas também precisa
correr. Precisa assistir a desenhos, mas também precisa inventar suas próprias
histórias.
Precisa
saber usar uma tela — sem permitir que a tela use seu tempo.
Talvez
a melhor infância possível esteja justamente no equilíbrio entre esses dois
mundos.
Podemos
oferecer às crianças de hoje tudo aquilo que a tecnologia proporciona sem
abandonar aquilo que havia de melhor nas décadas passadas: o contato com a
natureza, a convivência, a criatividade, a simplicidade, a liberdade
responsável e a capacidade de transformar pouco em muito.
Quem
viveu os anos 1980 e 1990 talvez carregue consigo uma saudade que não é apenas
das brincadeiras. É saudade de um tempo em que a vida parecia ter mais espaço
entre uma coisa e outra.
Mas
o objetivo não deve ser voltar ao passado.
Devemos
aprender com ele.
A
infância de hoje precisa da tecnologia, mas também precisa de quintais. Precisa
de informação, mas também de silêncio. Precisa de conexão digital, mas
sobretudo de vínculos verdadeiros. Precisa de brinquedos sofisticados, mas não
pode perder a capacidade de transformar um simples pedaço de papel em uma
aventura.
No
fundo, talvez a maior diferença entre ser criança ontem e ser criança hoje não
esteja nos brinquedos, nos celulares ou nos videogames.
Esteja
na quantidade de tempo que a criança ainda consegue ter para simplesmente ser
criança.
E
essa responsabilidade não é dela.
É
nossa.
Porque
uma infância saudável não se constrói apenas com aquilo que damos às crianças.
Constrói-se, principalmente, com o tempo que decidimos compartilhar com elas.
No
futuro, quando as crianças de hoje forem adultas, talvez sintam saudade de
alguma coisa que ainda nem sabem nomear.
Cabe
a nós garantir que, entre tantas telas, notificações e tecnologias, elas também
tenham boas lembranças para guardar.
Vitor M S Marques
Executivo de RH, Palestrante, Jornalista e Terapeuta Radiestésico
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