20/08/2026

A TELA DA VIDA! DIFERENÇA ENTRE A CRIANÇA NAS DÉCADAS DE 80/90 E HOJE

 

Ser criança nunca foi uma experiência igual para todas as gerações. Cada época constrói sua própria infância, marcada pela cultura, pela tecnologia, pelos valores familiares e pela maneira como a sociedade enxerga o tempo, a educação e as relações humanas. Comparar a infância das décadas de 1980 e 1990 com a infância atual é, portanto, mais do que recordar brincadeiras antigas. É refletir sobre o quanto mudamos — e sobre aquilo que talvez tenhamos perdido pelo caminho.

Para quem viveu a infância nos anos 1980 e 1990, havia uma liberdade que hoje parece quase inimaginável. Depois da escola, a rua era uma extensão da casa. Bicicletas, bolas, carrinhos, bonecas, pipas, amarelinha, esconde-esconde e pega-pega faziam parte da rotina. As crianças saíam para brincar e, muitas vezes, só voltavam quando alguém gritava da janela ou da porta: “Está na hora de entrar!”.

Não havia necessidade de marcar previamente um encontro pelo celular. Bastava aparecer na rua. Os amigos estavam lá.

A televisão também fazia parte da infância, mas ocupava um espaço diferente. Havia horários para assistir aos desenhos, aos programas infantis e às novelas. Quando terminava o programa preferido, simplesmente não havia outra opção. Não existiam streaming, vídeos infinitos ou milhares de conteúdos disponíveis a qualquer momento.

Esperar fazia parte da vida.

Esperava-se pelo próximo capítulo, pelo programa da semana seguinte, pela visita de um amigo, pelas férias, pelo aniversário e até pelas fotografias que seriam reveladas depois de levadas para a loja. A ansiedade fazia parte da experiência, mas também ensinava, silenciosamente, a lidar com a espera.

Hoje, uma criança pode carregar no bolso um universo inteiro. Celular, tablet, videogame, plataformas de streaming, redes sociais, inteligência artificial e jogos on-line oferecem entretenimento praticamente ilimitado. A informação chega em segundos. A comunicação acontece instantaneamente. Os amigos podem estar a quilômetros de distância e, ainda assim, conversar diariamente.

É uma infância com possibilidades extraordinárias.

Mas também é uma infância cercada por estímulos.

A criança contemporânea é exposta a uma quantidade de informações que nenhuma geração anterior conheceu tão cedo. Imagens, sons, vídeos, notificações, jogos, publicidade e conteúdos produzidos especialmente para prender sua atenção disputam permanentemente seus olhos e sua mente.

Nas décadas de 1980 e 1990, o tédio era comum. E talvez esse seja um dos grandes contrastes entre as duas épocas.

Quando não havia nada para fazer, a criança precisava inventar alguma coisa. Uma caixa de papelão podia virar uma casa. Um pedaço de madeira podia transformar-se em espada. Um lençol podia virar uma cabana. O quintal podia ser uma floresta, um estádio ou um planeta desconhecido.

O imaginário precisava trabalhar.

Hoje, muitas vezes, basta tocar na tela.

Isso não significa que a infância atual seja pior. Seria injusto romantizar o passado. As crianças de décadas anteriores também enfrentavam dificuldades. Havia menos acesso à informação, menos recursos educacionais e tecnológicos e, em muitas famílias, maior ausência dos adultos devido às exigências do trabalho. Nem tudo era idílico.

A diferença é que os riscos eram outros.

A criança que brincava na rua estava mais exposta aos perigos físicos, enquanto a criança de hoje pode estar protegida dentro de casa e, ao mesmo tempo, exposta a riscos virtuais, excesso de informação, comparação social e relações digitais que os adultos nem sempre conseguem acompanhar.

Também mudou a relação com os pais.

Nas décadas de 1980 e 1990, era comum uma educação mais baseada em regras claras e autoridade. “Porque eu sou seu pai” ou “porque eu sou sua mãe” muitas vezes era uma explicação suficiente. Hoje, felizmente, avançamos em muitos aspectos da educação, valorizando mais o diálogo, a escuta e o respeito à individualidade da criança.

Mas esse avanço também trouxe novos desafios.

Pais e mães vivem uma rotina acelerada, muitas vezes divididos entre trabalho, responsabilidades domésticas e preocupações financeiras. E, paradoxalmente, em uma época em que temos mais ferramentas para nos comunicar, podemos ter menos tempo para simplesmente estar juntos.

Talvez essa seja uma das maiores questões da infância contemporânea: a presença física nem sempre significa presença emocional.

Uma criança pode estar sentada ao lado dos pais enquanto todos olham para suas próprias telas.

Na infância de antigamente, a mesa de jantar, a conversa na calçada, a visita à casa dos avós e as brincadeiras coletivas eram oportunidades naturais de convivência. Hoje, essas experiências precisam ser protegidas e, muitas vezes, planejadas.

Há ainda outra diferença importante: a relação com o tempo.

A criança dos anos 1980 e 1990 aprendia naturalmente que algumas coisas demoravam. O mundo tinha um ritmo mais lento. Hoje, estamos acostumados à velocidade. Queremos respostas imediatas, entregas rápidas, entretenimento instantâneo e comunicação em tempo real.

E as crianças aprendem esse comportamento desde muito cedo.

Talvez o grande desafio dos adultos seja ensinar que nem tudo precisa acontecer imediatamente.

Ensinar uma criança a esperar, ouvir, observar, brincar, conversar, caminhar, criar e até ficar entediada pode ser tão importante quanto ensiná-la a utilizar a tecnologia.

Porque tecnologia não é inimiga da infância.

O problema começa quando ela ocupa o espaço que deveria pertencer à experiência humana.

Uma criança precisa conhecer o mundo digital, mas também precisa conhecer a terra. Precisa aprender a pesquisar na internet, mas também precisa aprender a conversar olhando nos olhos. Precisa jogar videogame, mas também precisa correr. Precisa assistir a desenhos, mas também precisa inventar suas próprias histórias.

Precisa saber usar uma tela — sem permitir que a tela use seu tempo.

Talvez a melhor infância possível esteja justamente no equilíbrio entre esses dois mundos.

Podemos oferecer às crianças de hoje tudo aquilo que a tecnologia proporciona sem abandonar aquilo que havia de melhor nas décadas passadas: o contato com a natureza, a convivência, a criatividade, a simplicidade, a liberdade responsável e a capacidade de transformar pouco em muito.

Quem viveu os anos 1980 e 1990 talvez carregue consigo uma saudade que não é apenas das brincadeiras. É saudade de um tempo em que a vida parecia ter mais espaço entre uma coisa e outra.

Mas o objetivo não deve ser voltar ao passado.

Devemos aprender com ele.

A infância de hoje precisa da tecnologia, mas também precisa de quintais. Precisa de informação, mas também de silêncio. Precisa de conexão digital, mas sobretudo de vínculos verdadeiros. Precisa de brinquedos sofisticados, mas não pode perder a capacidade de transformar um simples pedaço de papel em uma aventura.

No fundo, talvez a maior diferença entre ser criança ontem e ser criança hoje não esteja nos brinquedos, nos celulares ou nos videogames.

Esteja na quantidade de tempo que a criança ainda consegue ter para simplesmente ser criança.

E essa responsabilidade não é dela.

É nossa.

Porque uma infância saudável não se constrói apenas com aquilo que damos às crianças. Constrói-se, principalmente, com o tempo que decidimos compartilhar com elas.

No futuro, quando as crianças de hoje forem adultas, talvez sintam saudade de alguma coisa que ainda nem sabem nomear.

Cabe a nós garantir que, entre tantas telas, notificações e tecnologias, elas também tenham boas lembranças para guardar.

 Vitor M S Marques

Executivo de RH, Palestrante, Jornalista e Terapeuta Radiestésico

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