13/08/2026

QUANDO A TERRA TREME, NOSSO INTERIOR TAMBÉM SE ABALA, ONDE QUER QUE ESTEJAMOS!

 Há acontecimentos que ultrapassam fronteiras. Não precisam acontecer diante dos nossos olhos para nos atingir. Um terremoto que destrói cidades, separa famílias e transforma casas em escombros produz uma espécie de eco que atravessa quilômetros e chega até aqueles que apenas acompanham as imagens pela televisão ou pelas redes sociais.

Os recentes terremotos registrados em diferentes regiões do planeta, entre eles o devastador tremor de magnitude 7,4 que atingiu o oeste da Colômbia em 10 de agosto de 2026, recolocam diante da humanidade uma pergunta que talvez seja maior do que a própria tragédia: o que acontece dentro de nós quando percebemos que a Terra, o lugar que imaginamos ser nosso espaço de segurança, pode deixar de ser estável? O terremoto colombiano provocou mortes, destruição e milhares de pessoas afetadas, enquanto o temor de novos tremores e réplicas ampliou a sensação de insegurança.

 A primeira resposta é física. A segunda, porém, é psicológica.

Para quem está no epicentro de uma catástrofe, o mundo pode mudar em poucos segundos. A casa deixa de ser abrigo. A rua deixa de parecer segura. O chão, que sempre foi sinônimo de estabilidade, passa a ser percebido como uma ameaça. O cérebro humano, diante de uma situação dessa natureza, entra em estado de alerta. Medo, ansiedade, confusão, insônia, irritabilidade, sensação de impotência e necessidade permanente de vigilância podem aparecer.

A Organização Mundial da Saúde observa que praticamente todas as pessoas expostas a emergências experimentam algum grau de sofrimento psicológico, embora, para a maioria, esse sofrimento diminua com o tempo. Em uma parcela das pessoas, entretanto, podem surgir quadros mais persistentes, como ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático.

Mas existe uma dimensão ainda mais silenciosa.

Nós também somos afetados por aquilo que não vivemos diretamente.

Hoje, a tragédia chega até nós em tempo real. Vemos prédios desabando, pessoas chorando, crianças procurando familiares, ruas destruídas, equipes de resgate trabalhando entre escombros. A tecnologia diminuiu a distância física entre os acontecimentos e nossas emoções.

Antigamente, uma pessoa poderia ouvir falar de um terremoto ocorrido do outro lado do mundo dias depois. Hoje, ela pode assistir ao momento da destruição enquanto ele acontece.

Essa exposição permanente produz uma espécie de contaminação emocional global.

Não significa que todos desenvolverão uma doença psicológica. Seria incorreto afirmar isso. Mas o contato repetido com imagens de catástrofes pode alimentar sentimentos de vulnerabilidade, medo e insegurança, especialmente em pessoas que já apresentam ansiedade ou que passaram anteriormente por experiências traumáticas.

O fenômeno psicológico é interessante: quando vemos alguém perder sua casa, nossa mente consegue imaginar a possibilidade de perder a nossa. Quando vemos uma família procurando um desaparecido, pensamos na nossa própria família. Quando vemos o chão se abrir, percebemos que aquilo que considerávamos permanente pode, em determinadas circunstâncias, desaparecer em segundos.

O terremoto, portanto, não destrói apenas edifícios.

Ele abala certezas.

E talvez seja essa uma das suas consequências psicológicas mais profundas.

Vivemos em uma sociedade que construiu uma enorme sensação de controle. Planejamos nossas agendas, nossas carreiras, nossas finanças, nossas viagens, nossas casas e nossos projetos. A ciência e a tecnologia nos oferecem previsões, mapas, sistemas de monitoramento e mecanismos de proteção.

Mas o terremoto nos lembra de uma verdade incômoda: há forças da natureza que ainda não conseguimos controlar nem prever com precisão suficiente para impedir que aconteçam.

Essa constatação pode provocar ansiedade existencial.

É como se, por alguns instantes, a humanidade fosse obrigada a reconhecer sua própria fragilidade.

E essa fragilidade não é apenas individual. É coletiva.

Um terremoto pode provocar deslocamentos populacionais, perda de emprego, interrupção de serviços, separação de famílias, dificuldades econômicas e ruptura das relações comunitárias. A própria Organização Mundial da Saúde destaca que os terremotos produzem impactos que vão muito além das mortes e dos ferimentos imediatos, podendo interromper serviços de saúde, transporte, tratamento de doenças crônicas e outros sistemas essenciais.

Por isso, o trauma não termina quando os escombros são retirados.

Muitas vezes, começa justamente quando as câmeras deixam de mostrar a tragédia.

Depois da emergência vem o silêncio. É nesse momento que algumas pessoas precisam reconstruir não apenas uma casa, mas uma vida. Há quem passe a dormir com medo. Há quem não consiga entrar novamente em um edifício. Há quem sinta qualquer vibração como sinal de um novo terremoto. Há quem desenvolva medo de ficar sozinho.

E existe ainda o luto.

Perder uma pessoa querida em uma catástrofe natural produz uma dor que pode ser agravada pela violência e pela rapidez da perda. Estudos reunidos pela própria Organização Mundial da Saúde mostram que experiências como ficar preso sob escombros, sofrer perdas familiares e ter a propriedade severamente danificada estão associadas a maior ocorrência de sintomas de estresse pós-traumático em populações afetadas por terremotos.

Mas talvez devêssemos olhar para esses acontecimentos também por outro ângulo.

O terremoto revela a capacidade humana de reconstruir.

Em meio à destruição aparecem voluntários, bombeiros, médicos, vizinhos, desconhecidos carregando pessoas, comunidades compartilhando alimentos e famílias abrindo suas portas. A catástrofe pode revelar o pior do medo, mas também pode revelar o melhor da solidariedade.

Essa dimensão é fundamental para a saúde psicológica.

O ser humano precisa sentir que não está sozinho diante da ameaça.

Família, amigos, comunidade e redes de apoio são fatores importantes na recuperação após experiências traumáticas. A OMS ressalta que sentir-se apoiado por outras pessoas pode reduzir o risco de desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático.

Talvez esteja aí uma das maiores lições dos terremotos.

Eles nos lembram que nossa verdadeira segurança não está apenas nas paredes que construímos, mas também nas relações que estabelecemos.

Uma parede pode cair. Uma ponte pode ruir. Uma rua pode desaparecer. Mas uma comunidade solidária pode ajudar a reconstruir.

 

E há uma consequência psicológica ainda mais ampla para todos nós: a necessidade de repensar nossa relação com a informação.

Vivemos submetidos a uma sucessão quase interminável de tragédias. Terremotos, guerras, enchentes, incêndios, pandemias, acidentes e crises políticas chegam diariamente às telas. A mente humana, porém, não foi necessariamente preparada para processar tantas situações de ameaça simultaneamente.

É preciso aprender a acompanhar o mundo sem permitir que o mundo invada permanentemente nossa intimidade emocional.

Informar-se é necessário.

Viver em estado permanente de medo, não.

Isso exige equilíbrio. Exige compreender que solidariedade não significa carregar todas as dores do planeta dentro de nós. Podemos nos comover sem adoecer. Podemos ajudar sem nos destruir emocionalmente. Podemos acompanhar uma tragédia sem transformar a possibilidade da tragédia em uma certeza permanente dentro da nossa cabeça.

Os terremotos também deveriam provocar uma reflexão sobre prevenção.

A força da natureza não pode ser impedida, mas suas consequências podem ser reduzidas. Engenharia, planejamento urbano, códigos de construção, sistemas de alerta, educação da população e preparação das equipes de emergência fazem enorme diferença. Análises recentes sobre o terremoto colombiano reforçam que infraestrutura adequada, cumprimento de normas sísmicas e planejamento podem reduzir significativamente as perdas.

Preparar-se, portanto, também é uma forma de cuidar da saúde mental.

Porque conhecimento diminui a sensação de impotência.

Saber o que fazer durante um terremoto, conhecer as rotas de saída, confiar nas estruturas e saber onde procurar ajuda não elimina o medo, mas transforma o medo desorganizado em atenção consciente.

Talvez essa seja a grande reflexão que os terremotos oferecem à humanidade.

A Terra continuará se movimentando.

Nós continuaremos sendo pequenos diante das forças naturais.

Mas podemos escolher como responder àquilo que não controlamos.

Podemos responder com pânico ou preparação.

Com isolamento ou solidariedade. Com desinformação ou conhecimento. Com medo permanente ou consciência.

Quando a Terra treme, descobrimos que não somos tão fortes quanto imaginávamos. Mas também descobrimos algo extraordinário: somos capazes de reconstruir aquilo que desmoronou e, principalmente, de reconstruir uns aos outros.

Talvez seja essa a verdadeira força humana. Não a capacidade de impedir que o chão trema. Mas a capacidade de permanecer de pé depois que ele volta a ficar quieto.

 

Até a próxima semana!

 

Vitor Marques

Vitor M S Marques

Executivo de RH, Palestrante, Jornalista, Terapeuta Radiestésico e Cromoterapeuta

 

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