29/10/2026

A RESSACA POLÍTICA: QUANDO A ELEIÇÃO TERMINA, MAS AS FERIDAS FICAM - TRATAMENTO CONTINUO E NECESSÁRIO É VITAL

 

Toda eleição tem seu antes, seu durante e seu depois. O antes é marcado pelas expectativas, pelas promessas e pela esperança de dias melhores. O durante é feito de debates, disputas, emoções e, muitas vezes, excessos. O depois, porém, traz uma realidade que nem sempre estamos preparados para enfrentar: a ressaca política.

É quando a adrenalina começa a baixar, os discursos perdem o brilho e a vida cotidiana volta a cobrar respostas. É também quando vencedores e vencidos, cada qual à sua maneira, precisam lidar com as consequências emocionais de um processo que mobiliza paixões, desperta sonhos e, não raras vezes, deixa decepções pelo caminho.

O vencedor experimenta a euforia da conquista. Sente que suas ideias prevaleceram, que sua escolha foi acertada e que o futuro poderá corresponder às suas expectativas. O vencido, por sua vez, enfrenta a frustração, a sensação de que seus argumentos não foram compreendidos e, por vezes, a desconfiança de que algo poderia ter sido diferente. Ambos viveram suas overdoses de adrenalina. Ambos investiram emoções, tempo e esperança. E ambos, embora em posições distintas, fazem parte da mesma sociedade, que continuará a compartilhar ruas, escolas, hospitais, desafios e sonhos.

O problema começa quando a disputa eleitoral deixa de ser um episódio da democracia e passa a ocupar o espaço das relações humanas, transformando diferenças de opinião em motivos para afastamentos, ressentimentos e inimizades.

A promessa que o vento leva

Durante as campanhas, as palavras parecem ter poderes extraordinários. Promete-se resolver problemas históricos, ampliar oportunidades, melhorar serviços públicos e transformar a realidade de comunidades inteiras. Em alguns discursos, tudo parece possível, imediato e até simples.

Entretanto, depois da vitória, algumas dessas promessas começam a perder força. O que antes era apresentado como compromisso inadiável passa a depender de circunstâncias, negociações, recursos ou decisões futuras. Certas propostas são reformuladas; outras são adiadas; algumas simplesmente desaparecem, como palavras levadas pelo vento.

É verdade que governar exige enfrentar limitações concretas, e nem toda promessa não cumprida representa, necessariamente, má-fé. A realidade administrativa pode ser mais complexa do que a campanha permite perceber. O que não se pode admitir, porém, é que a promessa irresponsável se transforme em instrumento habitual de conquista de votos, sem compromisso com a transparência e a prestação de contas.


Quando isso acontece, não é apenas uma expectativa que se desfaz. É a credibilidade do processo eleitoral que sofre um golpe. O cidadão começa a perguntar se vale a pena acreditar, participar, acompanhar e continuar exercendo sua responsabilidade democrática.

E essa desconfiança é perigosa. Uma democracia não se sustenta apenas no ato de votar, mas também na confiança de que o voto representa uma escolha livre, consciente e capaz de produzir consequências reais.

A ilusão digital e o perigo da desinformação

Nunca tivemos tantas possibilidades de acesso à informação. A internet aproximou pessoas, ampliou o debate público e permitiu que diferentes ideias alcançassem públicos que antes dificilmente teriam voz. Essa é uma conquista que merece ser reconhecida.

Mas a mesma ferramenta que informa também pode confundir, manipular e distorcer a realidade.

Nas redes sociais, uma mensagem emocional pode alcançar milhares de pessoas antes que alguém se disponha a verificar sua origem. Uma imagem fora de contexto, uma declaração adulterada ou uma notícia falsa, repetida muitas vezes, pode adquirir aparência de verdade. O compartilhamento passa a substituir a verificação, e a convicção pessoal ocupa o lugar da reflexão.

Forma-se, assim, uma espécie de credibilidade utópica: acreditamos que determinada informação é verdadeira porque confirma aquilo em que já acreditávamos. Não investigamos sua origem, não confrontamos outras fontes e, muitas vezes, não percebemos que estamos sendo conduzidos por conteúdos preparados para despertar medo, indignação ou ódio.

As fake news não prejudicam apenas candidatos ou partidos. Elas comprometem a capacidade coletiva de compreender os problemas reais e tomar decisões conscientes. Quando a mentira se torna parte do debate, todos perdem, inclusive aqueles que acreditam ter saído vencedores.

Por isso, compartilhar também é uma responsabilidade. Antes de encaminhar uma mensagem, precisamos perguntar: quem produziu esta informação? Qual é a sua fonte? Há evidências que a sustentem? O que acontece se ela for falsa?

Em tempos de comunicação instantânea, pensar antes de clicar pode ser um dos mais importantes exercícios de cidadania.

A juventude diante do primeiro desencanto

Há uma preocupação ainda maior quando observamos os jovens que começam a construir sua compreensão da vida social e política.

Para muitos deles, o primeiro contato mais intenso com uma eleição acontece justamente nesse ambiente de discursos inflamados, disputas virtuais e acusações recíprocas. É nesse cenário que começam a formar suas opiniões, descobrir o valor da participação e compreender o funcionamento das instituições.

Que exemplo estamos oferecendo a essa geração?

Se mostramos que vencer significa humilhar o adversário, que discordar é motivo para ofender e que a verdade pode ser adaptada às conveniências, corremos o risco de ensinar que a política é apenas um campo de batalha, e não um espaço de convivência e construção coletiva.

Pior ainda: quando os jovens percebem que determinadas promessas não se concretizam e que a ética parece ser esquecida em nome da vitória, podem concluir que a participação não vale a pena. O desencanto precoce pode abrir caminho para a indiferença, justamente quando precisamos de uma juventude interessada, crítica, informada e disposta a transformar a sociedade.

Precisamos mostrar a esses jovens que questionar não é desrespeitar, que mudar de opinião diante de novos fatos não é fraqueza e que reconhecer um erro é sinal de maturidade. A democracia precisa de pessoas capazes de pensar por conta própria, ouvir argumentos diferentes e compreender que nenhuma geração deve receber como herança a desesperança construída pela anterior.

Quando a política entra em casa e afasta as pessoas

Talvez uma das consequências mais dolorosas da ressaca política seja aquela que não aparece nas estatísticas eleitorais: o desgaste das relações pessoais.

Quantas famílias deixaram de conversar sobre determinados assuntos para evitar discussões? Quantos amigos se afastaram porque escolheram candidatos diferentes? Quantos encontros terminaram em acusações, ironias e palavras que dificilmente serão esquecidas?

A política, que deveria tratar dos caminhos coletivos, acaba, em certas circunstâncias, destruindo pontes construídas durante anos de convivência.

É preciso reconhecer que as escolhas políticas refletem experiências, valores, necessidades e expectativas diferentes. Nem sempre concordaremos uns com os outros. E não precisamos concordar para continuar respeitando alguém.

O limite está em compreender que nenhuma divergência eleitoral autoriza a desqualificação de uma pessoa, a agressão verbal ou a ruptura automática de um vínculo afetivo. O outro não deixa de ser pai, mãe, irmão, filho ou amigo porque depositou seu voto de maneira diferente da nossa.

A ética não pode ser exigida apenas dos candidatos. Ela também precisa estar presente na maneira como discutimos, argumentamos e reagimos às escolhas alheias.

Se desejamos representantes públicos capazes de dialogar, precisamos começar pelo diálogo dentro de nossas próprias casas. Se cobramos respeito nas instituições, devemos praticá-lo nas conversas cotidianas. A democracia também se aprende à mesa de jantar, nas reuniões familiares e nos encontros entre amigos.

A ressaca precisa passar, mas a consciência deve permanecer

Depois de uma eleição, é natural sentir alegria, frustração, esperança ou preocupação. O que não podemos fazer é permitir que essas emoções determinem, indefinidamente, a maneira como enxergamos o país e as pessoas que vivem nele.

A eleição termina, mas a cidadania não. O voto não encerra nossa responsabilidade; ele inaugura uma nova etapa de acompanhamento, cobrança e participação. Cabe ao cidadão observar as ações dos eleitos, avaliar os resultados, exigir transparência e reconhecer os avanços quando existirem. A fiscalização democrática não deve ser movida pelo ressentimento de quem perdeu nem substituída pela tolerância automática de quem venceu.

Precisamos aprender a separar a esperança da ingenuidade, a crítica do ódio e a convicção da intolerância. Precisamos compreender que acreditar no futuro não significa ignorar os problemas do presente.

A resiliência e a perseverança são difíceis, especialmente quando as expectativas se frustram e a confiança é abalada. Mas são necessárias. Ser resiliente não é aceitar tudo passivamente, tampouco fingir que nada aconteceu. É reconhecer as dificuldades, aprender com os erros e encontrar forças para continuar agindo. Perseverar não significa repetir os mesmos caminhos, mas buscar alternativas melhores, com responsabilidade e lucidez.

Não podemos desistir do nosso país porque uma eleição nos decepcionou. Não podemos abandonar a esperança porque algumas promessas ficaram pelo caminho. E, sobretudo, não podemos permitir que as nossas disputas de hoje comprometam as oportunidades das crianças que estão chegando ao mundo.

Elas merecem herdar um país no qual as diferenças sejam respeitadas, a verdade tenha valor, as instituições sejam acompanhadas com responsabilidade e a política seja compreendida como instrumento de transformação, não como justificativa para o ódio.

Talvez não consigamos mudar tudo o que desejamos. Mas podemos mudar a maneira como participamos, como nos informamos, como cobramos e como tratamos aqueles que pensam de forma diferente.

A ressaca política vai passar. A euforia dos vencedores diminuirá, a frustração dos vencidos encontrará novos caminhos e a vida continuará a nos apresentar seus desafios. O que precisa permanecer é a disposição de construir um futuro melhor.

Porque um país não pertence apenas a quem venceu uma eleição. Pertence a todos os que nele vivem, trabalham, sonham e educam seus filhos.

E o futuro das próximas gerações não pode ser refém das mágoas das gerações atuais.

Que saibamos transformar a decepção em aprendizado, a divergência em diálogo e a esperança em atitude. Afinal, a democracia não exige que caminhemos todos na mesma direção em cada escolha. Exige que, apesar das diferenças, sejamos capazes de continuar caminhando juntos na defesa do bem comum.

Não desistamos do Brasil. Não desistamos uns dos outros. E, principalmente, não desistamos das crianças que ainda acreditam que o amanhã pode ser melhor do que hoje.

Vitor Marques é Executivo de RH, Jornalista, Escritor e Consultor de Empresas

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