21/10/2026

NOVEMBRO, O MÊS EM QUE APRENDEMOS A ACENDER A LUZ DENTRO DE NÓS

 Há meses que chegam com o sol. Outros chegam com a saudade. Novembro pertence, talvez, aos dois. As folhas desprendem-se das árvores, os dias encolhem, as tardes vestem-se de cinzento e há uma espécie de silêncio que se instala nas ruas, nas casas e, por vezes, dentro de nós. É como se a própria natureza nos convidasse a abrandar, a olhar para trás e a pensar naquilo que andamos a fazer com o tempo que nos foi concedido.

Vivemos demasiado depressa. Corremos para chegar a horas, trabalhamos para cumprir objectivos, consultamos o telemóvel dezenas de vezes por dia e respondemos a mensagens enquanto a vida acontece mesmo à nossa frente. Estamos permanentemente ligados, mas será que estamos verdadeiramente próximos?

Nunca tivemos tantas possibilidades de comunicar e, ainda assim, há quem passe dias inteiros sem ouvir uma palavra de carinho, sem receber uma visita inesperada ou sem encontrar alguém disposto a escutar, com tempo e atenção, aquilo que lhe vai na alma.

A solidão tornou-se uma das grandes inquietações do nosso tempo. Não escolhe idade, condição social ou lugar de residência. Pode morar numa aldeia quase esquecida, num bairro movimentado ou num apartamento onde vivem pessoas que, apesar de partilharem o mesmo espaço, já pouco partilham da vida umas das outras. Em Portugal, o isolamento dos mais velhos continua a merecer uma atenção particular, lembrando-nos de que envelhecer com dignidade também significa continuar a sentir-se necessário, ouvido e amado.

Talvez seja este um dos maiores desafios da sociedade contemporânea: voltar a reconhecer a importância da presença humana.

Não precisamos de grandes discursos para transformar o dia de alguém. Por vezes, basta tocar à porta de um vizinho, telefonar àquele amigo de quem não temos notícias há semanas, visitar um familiar que vive sozinho ou perguntar a um colega de trabalho se está tudo bem — e esperar verdadeiramente pela resposta.

São gestos pequenos, quase invisíveis, que não aparecem nas estatísticas do crescimento económico, não fazem subir os índices de produtividade nem conquistam títulos nos jornais. Mas podem mudar o dia de uma pessoa. E, em determinadas circunstâncias, podem devolver-lhe a vontade de continuar.

Também nós precisamos de aprender a cuidar de nós próprios. A reconhecer o cansaço, a aceitar que nem sempre conseguimos resolver tudo e a compreender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Há momentos em que a maior demonstração de coragem consiste simplesmente em admitir que precisamos de alguém.

Novembro recorda-nos ainda aqueles que partiram. O Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados trazem à memória rostos, vozes, abraços e histórias que o tempo não conseguiu apagar. A ausência ensina-nos, tantas vezes de forma dolorosa, que as pessoas não são eternas, mas aquilo que nos deixam pode acompanhar-nos durante toda a vida.

É por isso que não devemos adiar os afectos. Não devemos guardar para amanhã o abraço que podemos dar hoje, a palavra de gratidão que ainda não dissemos ou o perdão que teimamos em manter prisioneiro do orgulho.

A vida não nos garante que teremos outra oportunidade.

E talvez seja precisamente aqui que reside a mensagem mais importante deste mês: apesar das perdas, das dificuldades e das incertezas, continuamos a ter a possibilidade de escolher a forma como queremos viver.

Não escolhemos todas as circunstâncias que nos acontecem. Não controlamos as decisões dos outros, as mudanças do mundo ou os imprevistos que nos obrigam a alterar os nossos planos. Mas podemos escolher não responder à indiferença com mais indiferença, não alimentar o ódio quando podemos promover o diálogo e não desistir da esperança apenas porque os caminhos se tornaram mais difíceis.

A esperança não é a convicção ingénua de que tudo correrá bem. É a capacidade de acreditar que, mesmo quando as coisas não correm como desejamos, ainda podemos fazer alguma coisa para as melhorar.

É levantar-nos depois de uma queda. É recomeçar quando julgávamos ter chegado ao fim. É aceitar que os anos passam, que o corpo muda e que os sonhos também podem ganhar novas formas. É perceber que nunca somos demasiado velhos para aprender, demasiado cansados para amar ou demasiado pequenos para fazer a diferença.

Há quem espere que o mundo mude para começar a ser feliz. Há quem aguarde melhores condições, melhores notícias ou melhores dias para voltar a sorrir. Mas a vida não acontece apenas quando todas as circunstâncias são favoráveis. A vida acontece agora, neste instante imperfeito que tantas vezes desperdiçamos à espera de um futuro ideal.

Por isso, neste novembro, proponho um exercício simples: acendamos uma luz.

Não uma luz eléctrica para afastar a escuridão das tardes, mas uma luz interior, feita de consciência, generosidade, coragem e vontade de continuar.

Que essa luz nos ajude a olhar para os outros sem preconceitos, a escutar antes de julgar, a valorizar quem caminha ao nosso lado e a reconhecer que cada pessoa transporta consigo batalhas que nem sempre conseguimos ver.

Que nos ensine a dar mais valor ao tempo do que às coisas, à amizade do que à aparência e à paz do que à necessidade de ter sempre razão.

E que nos lembre-se de que uma sociedade melhor não se constrói apenas com grandes decisões políticas ou avanços tecnológicos. Constrói-se também nas famílias, nas escolas, nos locais de trabalho, nas associações, nas comunidades e em cada gesto de respeito pela dignidade humana.

Quando novembro terminar, o calendário avançará para dezembro e as luzes de Natal começarão a iluminar as nossas ruas. Mas não precisamos de esperar pelo Natal para sermos mais solidários, nem de esperar pelo Ano Novo para mudar aquilo que sabemos estar errado.

Podemos começar hoje.

Porque o verdadeiro recomeço não depende da mudança de um mês, de um ano ou de uma estação. Depende da nossa disponibilidade para olhar a vida com outros olhos e fazer diferente aquilo que está ao nosso alcance.

Afinal, talvez a maior lição de novembro seja esta: quando o mundo parece escurecer, não devemos limitar-nos a lamentar a falta de luz. Devemos procurar dentro de nós a coragem para acender a primeira chama.

E depois, com humildade e esperança, partilhá-la com os outros.

Porque nenhuma noite dura para sempre. E porque, enquanto houver alguém disposto a cuidar, a acreditar e a recomeçar, haverá sempre uma razão para esperar pelo amanhã.

 

Vitor Manuel Simões Marques

Executivo de RH, palestrante, escritor e jornalista

Campinas / SP – Brasil _ (Neto de Serpins – Filho de Portugal)

e-mail: vitor.marques@psmcompany.com.br

 (PUBLICADO NO JORNAL VOZ DE SERPINS - SERPINS / PORTUGAL)

Nota:

Se aproxima um momento de profundo orgulho para minha trajetória de vida, já há 20 meses aguardo o deferimento da minha cidadania portuguesa, um prazo bem longo em que todos os dias monitoro o processo junto à Justiça Portuguesa. Por vezes fico desanimado por ser filho de pai e mãe portugueses, por amar imensamente essa terra, por contribuir de diversas formas com esse pátria amada, inclusive com meus artigos aqui neste jornal, enfim, por realmente ter e fazer por ter direito a essa documentação.

Dizerm que o prazo médio dessa liberação é de 26 meses (muito grande num processo tão simples como o meu é), mas que eu saiba não tem o que fazer. Se alguém que aqui lê essa nota souber de como pode ser acelerado isso seria de bom alvitre e agradeço desde já

 

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