Há meses que chegam com o sol. Outros chegam com a saudade. Novembro pertence, talvez, aos dois. As folhas desprendem-se das árvores, os dias encolhem, as tardes vestem-se de cinzento e há uma espécie de silêncio que se instala nas ruas, nas casas e, por vezes, dentro de nós. É como se a própria natureza nos convidasse a abrandar, a olhar para trás e a pensar naquilo que andamos a fazer com o tempo que nos foi concedido.
Vivemos
demasiado depressa. Corremos para chegar a horas, trabalhamos para cumprir
objectivos, consultamos o telemóvel dezenas de vezes por dia e respondemos a
mensagens enquanto a vida acontece mesmo à nossa frente. Estamos
permanentemente ligados, mas será que estamos verdadeiramente próximos?
Nunca
tivemos tantas possibilidades de comunicar e, ainda assim, há quem passe dias
inteiros sem ouvir uma palavra de carinho, sem receber uma visita inesperada ou
sem encontrar alguém disposto a escutar, com tempo e atenção, aquilo que lhe
vai na alma.
A
solidão tornou-se uma das grandes inquietações do nosso tempo. Não escolhe
idade, condição social ou lugar de residência. Pode morar numa aldeia quase
esquecida, num bairro movimentado ou num apartamento onde vivem pessoas que,
apesar de partilharem o mesmo espaço, já pouco partilham da vida umas das
outras. Em Portugal, o isolamento dos mais velhos continua a merecer uma
atenção particular, lembrando-nos de que envelhecer com dignidade também
significa continuar a sentir-se necessário, ouvido e amado.
Talvez
seja este um dos maiores desafios da sociedade contemporânea: voltar a
reconhecer a importância da presença humana.
Não
precisamos de grandes discursos para transformar o dia de alguém. Por vezes,
basta tocar à porta de um vizinho, telefonar àquele amigo de quem não temos
notícias há semanas, visitar um familiar que vive sozinho ou perguntar a um
colega de trabalho se está tudo bem — e esperar verdadeiramente pela resposta.
São
gestos pequenos, quase invisíveis, que não aparecem nas estatísticas do
crescimento económico, não fazem subir os índices de produtividade nem
conquistam títulos nos jornais. Mas podem mudar o dia de uma pessoa. E, em
determinadas circunstâncias, podem devolver-lhe a vontade de continuar.
Também
nós precisamos de aprender a cuidar de nós próprios. A reconhecer o cansaço, a
aceitar que nem sempre conseguimos resolver tudo e a compreender que pedir
ajuda não é sinal de fraqueza. Há momentos em que a maior demonstração de
coragem consiste simplesmente em admitir que precisamos de alguém.
Novembro
recorda-nos ainda aqueles que partiram. O Dia de Todos os Santos e o Dia de
Finados trazem à memória rostos, vozes, abraços e histórias que o tempo não
conseguiu apagar. A ausência ensina-nos, tantas vezes de forma dolorosa, que as
pessoas não são eternas, mas aquilo que nos deixam pode acompanhar-nos durante
toda a vida.
É
por isso que não devemos adiar os afectos. Não devemos guardar para amanhã o
abraço que podemos dar hoje, a palavra de gratidão que ainda não dissemos ou o
perdão que teimamos em manter prisioneiro do orgulho.
A
vida não nos garante que teremos outra oportunidade.
E
talvez seja precisamente aqui que reside a mensagem mais importante deste mês:
apesar das perdas, das dificuldades e das incertezas, continuamos a ter a
possibilidade de escolher a forma como queremos viver.
Não
escolhemos todas as circunstâncias que nos acontecem. Não controlamos as
decisões dos outros, as mudanças do mundo ou os imprevistos que nos obrigam a
alterar os nossos planos. Mas podemos escolher não responder à indiferença com
mais indiferença, não alimentar o ódio quando podemos promover o diálogo e não
desistir da esperança apenas porque os caminhos se tornaram mais difíceis.
A
esperança não é a convicção ingénua de que tudo correrá bem. É a capacidade de
acreditar que, mesmo quando as coisas não correm como desejamos, ainda podemos
fazer alguma coisa para as melhorar.
É
levantar-nos depois de uma queda. É recomeçar quando julgávamos ter chegado ao
fim. É aceitar que os anos passam, que o corpo muda e que os sonhos também
podem ganhar novas formas. É perceber que nunca somos demasiado velhos para
aprender, demasiado cansados para amar ou demasiado pequenos para fazer a
diferença.
Há
quem espere que o mundo mude para começar a ser feliz. Há quem aguarde melhores
condições, melhores notícias ou melhores dias para voltar a sorrir. Mas a vida
não acontece apenas quando todas as circunstâncias são favoráveis. A vida
acontece agora, neste instante imperfeito que tantas vezes desperdiçamos à
espera de um futuro ideal.
Por
isso, neste novembro, proponho um exercício simples: acendamos uma luz.
Não
uma luz eléctrica para afastar a escuridão das tardes, mas uma luz interior,
feita de consciência, generosidade, coragem e vontade de continuar.
Que
essa luz nos ajude a olhar para os outros sem preconceitos, a escutar antes de
julgar, a valorizar quem caminha ao nosso lado e a reconhecer que cada pessoa
transporta consigo batalhas que nem sempre conseguimos ver.
Que
nos ensine a dar mais valor ao tempo do que às coisas, à amizade do que à
aparência e à paz do que à necessidade de ter sempre razão.
E
que nos lembre-se de que uma sociedade melhor não se constrói apenas com
grandes decisões políticas ou avanços tecnológicos. Constrói-se também nas
famílias, nas escolas, nos locais de trabalho, nas associações, nas comunidades
e em cada gesto de respeito pela dignidade humana.
Quando
novembro terminar, o calendário avançará para dezembro e as luzes de Natal
começarão a iluminar as nossas ruas. Mas não precisamos de esperar pelo Natal
para sermos mais solidários, nem de esperar pelo Ano Novo para mudar aquilo que
sabemos estar errado.
Podemos
começar hoje.
Porque
o verdadeiro recomeço não depende da mudança de um mês, de um ano ou de uma
estação. Depende da nossa disponibilidade para olhar a vida com outros olhos e
fazer diferente aquilo que está ao nosso alcance.
Afinal,
talvez a maior lição de novembro seja esta: quando o mundo parece escurecer,
não devemos limitar-nos a lamentar a falta de luz. Devemos procurar dentro de
nós a coragem para acender a primeira chama.
E
depois, com humildade e esperança, partilhá-la com os outros.
Porque
nenhuma noite dura para sempre. E porque, enquanto houver alguém disposto a
cuidar, a acreditar e a recomeçar, haverá sempre uma razão para esperar pelo
amanhã.
Vitor Manuel Simões Marques
Executivo de RH, palestrante, escritor e jornalista
Campinas / SP – Brasil _ (Neto de Serpins – Filho de Portugal)
e-mail: vitor.marques@psmcompany.com.br
Nota:
Se
aproxima um momento de profundo orgulho para minha trajetória de vida, já há 20
meses aguardo o deferimento da minha cidadania portuguesa, um prazo bem longo
em que todos os dias monitoro o processo junto à Justiça Portuguesa. Por vezes
fico desanimado por ser filho de pai e mãe portugueses, por amar imensamente
essa terra, por contribuir de diversas formas com esse pátria amada, inclusive
com meus artigos aqui neste jornal, enfim, por realmente ter e fazer por ter
direito a essa documentação.
Dizerm
que o prazo médio dessa liberação é de 26 meses (muito grande num processo tão
simples como o meu é), mas que eu saiba não tem o que fazer. Se alguém que aqui
lê essa nota souber de como pode ser acelerado isso seria de bom alvitre e
agradeço desde já
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